OS EUA E A DITADURA MILITAR NO BRASIL:
ESTRATÉGIAS DE DEFESA E DE SEGURANÇA DA “DEMOCRACIA”.1
ARAUJO, Gabriel Felipe Dantas Correia & RINALDI, Augusto Leal. Os EUA e a ditadura militar no Brasil: estratégias de defesa e segurança da 'democracia'. Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 4, Nº23, Rio, 2009 [ISSN 1981-3384]. 2
RESUMO
Podemos definir a Ditadura Militar como sendo o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura e perseguição política e repressão aos que eram contra o regime. Segundo especialistas, foi um regime político que se edificou a partir da uma aliança entre o exército brasileiro, a burguesia nacional e a burguesia estrangeira, principalmente dos EUA, que possuía interesses óbvios nesta região. Para uma melhor compreensão desse fato histórico ocorrido no Brasil faz-se necessário contextualizá-lo no período da Guerra fria, em que EUA e URSS hegemonizaram o poder mundial. EUA e URSS foram as superpotências do período e o mundo todo passou a orbitar em torno desses dois países.
A grande divergência da Guerra Fria esteve no marco ideológico, onde tínhamos de um lado os EUA, claro representante da ordem mundial capitalista, e de outro lado a URSS, que representava o socialismo. Nesse sentido a instalação de ditaduras militares nos países da América Latina, e de modo especifico no Brasil, representou uma das formas encontradas pelos EUA e pela burguesia nacionalista e reacionária desses países de defenderem e de asseguraram a perpetuação do sistema capitalista no continente americano e conseqüentemente no mundo. Uma análise aprofundada do período ditatorial militar no Brasil nos colocará diante de importantes estratégias utilizadas pelos EUA para apoiar o referido regime político no Brasil e garantir assim a “ordem” e a “paz” nas Américas. Nesse sentido objetivo desse trabalho é apresentar e refletir sobre algumas das estratégias de segurança e defesa utilizadas pelos EUA durante o período ditatorial brasileiro. As quais foram decisivas para perpetuação do regime capitalista no Brasil e para consolidar a hegemonia norte-americana nas Américas.
Palavras-Chave: Brasil, EUA, Ditadura Militar, Estratégia de Defesa, Estratégia de Segurança, América Latina.
1 – Introdução
Podemos definir a Ditadura Militar como sendo o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura e perseguição política e repressão aos que eram contra o regime. Foi um regime político que se edificou a partir da uma aliança entre o exército brasileiro, a burguesia nacional e a burguesia estrangeira, principalmente dos EUA, que possuía interesses óbvios nesta região (FERNANDES, 1982).
Para uma melhor compreensão desse fato histórico ocorrido no Brasil faz-se necessário contextualizá-lo no período da Guerra fria, em que EUA e URSS hegemonizaram o poder mundial. EUA e URSS eram as superpotências do período e o mundo todo passou a orbitar em torno desses dois países. A grande divergência da Guerra Fria esteve no marco ideológico, onde tínhamos de um lado os EUA, claro representante da ordem mundial capitalista, e de outro lado a URSS, que representava o socialismo.
Nesse sentido a instalação de ditaduras militares nos países da América Latina, e de modo especifico no Brasil, representou uma das formas encontradas pelos EUA e pela burguesia nacionalista e reacionária desses países de defenderem e de asseguraram a perpetuação do sistema capitalista no continente americano e conseqüentemente no mundo.
A partir de uma pesquisa realizada no primeiro semestre do ano 2008 junto à disciplina Geopolítica da América Latina em que realizamos uma análise do período ditatorial militar no Brasil, nos deparamos com importantes estratégias utilizadas pelos EUA para apoiar o referido regime político no país e garantir assim a “ordem” e a “paz” nas Américas. Entre essas estratégias podemos citar a Aliança para o Progresso, o Plano Cáritas, a Operação Brother Sam e Operação Condor.
Nesse contexto o presente trabalho objetiva apresentar algumas considerações sobre essas três estratégias de segurança e de defesa utilizadas pelos EUA durante o período da ditadura militar no Brasil, as quais foram decisivas para perpetuação do regime capitalista no país e para consolidar a hegemonia norte-americana nas Américas.
No primeiro tópico procuramos apresentar o contexto histórico e geopolítico da guerra fria a fim de melhor compreender o processo histórico-social que deu origem ao regime ditatorial militar no Brasil. Em seguida a isso apresentamos algumas considerações sobre a natureza dos regimes militares no Brasil. No terceiro tópico apresentaremos uma caracterização das três estratégias utilizadas pelos EUA para garantir a territorialidade do sistema capitalista no Brasil. Por fim nas considerações finais apresentaremos algumas conclusões que obtivemos a partir de nossa pesquisa.
2-O contexto geopolítico da Guerra Fria
A Guerra Fria é o período histórico caracterizado pela disputa direta entre as duas grandes potências globais da época, Estados Unidos da América – EUA – e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS. Nesse período essas duas superpotências buscavam de forma constante garantir para si, mais especificamente para seu modelo de organização social, política e econômica, o maior número de países aliados. Esse período histórico começa a se delinear a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945 e tem seu fim no final da década de 1980. A ordem internacional era direcionada pela influência desses dois países, que conformavam uma “divisão mundial” na qual a opção de escolha para os demais países era restrita a dois caminhos: o socialismo ou o capitalismo.
Segundo Magnoli (1996) nesse período
Comandando diretamente ou indiretamente dezenas de Estados abrigados em suas áreas de influência, as superpotências encetam um disputa pela hegemonia mundial que tem como repercussões nos planos político, econômico e propagandístico. Essa disputa adquiriu fortes tonalidades ideológicas porque – pelo menos aparentemente – tratava-se de um conflito que contrapunha uma democracia liberal associada à economia capitalista de mercado ( Estados Unidos) a um sistema político unipartidário associado à economia estatizada e centralmente planificada ( União Soviética). (p.47, 1996)
Durante a vigência dessa ordem internacional as duas superpotências buscavam elaborar estratégias cada vez mais eficientes para garantir a territorialidade do sistema sócio-econômico o qual defendiam. Por exemplo, se por acaso uma nação optasse por manter relações diplomáticas ou até mesmo comerciais com a URSS, os EUA intervinham pesadamente a fim de recuperar o “território perdido”, ou punir a nação pela sua escolha. O mesmo aconteceria se a URSS sentisse o seu território ameaçado.
Para Gonçalves & Haesbaert ( 2006), a ordem instaurada no decorrer da Guerra Fria era sustentada por uma idéia geopolítica fundamental, a idéia de bloco. Dividia-se claramente o mundo entre capitalistas e socialistas (...), e cada conflito acabava, cedo ou tarde, buscando guarida numa dessas duas alternativas. (p.86, grifos dos autores)
Isso significa que foi um período no qual a bipolaridade entre as diferentes formas de governo se torna uma disputa ideológica pela busca de adeptos. A idéia de bloco se traduz na forma de um bloco de hegemonia capitalista liderada pelos EUA, procurando impor, e muitas vezes impondo, sua doutrina econômica e política e outro bloco na forma socialista protagonizada pela URSS, com os mesmos objetivos.
Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA se preocuparam em barrar a expansão soviética na Europa Central e nos Bálcãs tentando conquistar posições estratégicas na região. Por outro lado a URSS se esforçava para se tornar adeptos da sua linha de pensamento o maior número possível de países a sua volta, para que dessa forma fortalecesse o bloco.
Nas primeiras décadas da guerra fria houve uma significativa expansão territorial do socialismo no mundo, vimos emergir movimentos revolucionários de natureza socialista em todos os continentes os quais, na maioria das vezes, resultaram em conflitos armados de grande expressão.
A Ásia foi uma das áreas que logo entrou em cheque na guerra fria, as disputas na China, nas Coréias e no Vietnã são exemplos claros de que a guerra ideológica estava se alastrando. Com a América Latina não foi diferente, nessa região o embate começou realmente no ano de 1959. Com a Revolução Castrista em Cuba a América Latina entra de vez na Guerra Fria.
Em 1959, o triunfo da Revolução Cubana produziu uma ruptura na história do continente. A partir de então, todos os movimentos políticos latino-americanos passaram a ser considerados do ponto de vista dos interesses geopolíticos das duas superpotências. (Arruda & Piletti, p. 401, 2005)
Desde então essa parte do continente americano passou a ser palco de disputa acirrada entre o sistema capitalista e o sistema socialista. Os Estados Unidos e a União Soviética lançavam mão das mais diversas estratégias de dominação. Além da crise dos mísseis que ocorreu no ano de 1962, em Cuba, muitos outros conflitos e jogos de interesses - muitas vezes acobertados - demonstram a grande preocupação que os EUA tinham em consolidar sua presença hegemônica na região. Muitas das estratégias de dominação utilizadas nesse pelas duas superpotências se mostraram bastante claras á toda a sociedade, como por exemplo, a corrida armamentista-nuclear, a corrida espacial e a corrida pelo domínio de tecnologia de ponta que tinham como objetivo legitimar a eficiência deste ou daquele sistema econômico. Por outro lado, existiram também aquelas que estrategicamente passaram despercebidas diante dos olhos de grande parte da sociedade. A essas iremos dedicar um tópico do presente texto.
2- A Guerra Fria, a América Latina e o Brasil.
A maior expressão da Guerra Fria na América Latina seguiu-se com a implantação de governos militares ditatoriais em grande parte de seus países. Isso na tentativa de conter os movimentos de esquerda que eclodiam e que carregavam a bandeira do socialismo. Assim as décadas de 1960 e 1970 foram turbulentas para as nações latino-americanas, em muitos países a democracia foi suprimida e a imposição de ditaduras foi um acontecimento freqüente. E nota-se claramente que os EUA tiveram participações importantes nas implantações e consolidação dessas ditaduras.
Têm-se muitos exemplos da participação norte-americana nas instalações de ditaduras latino-americanas como, por exemplo, em 1973 no Chile. Na Argentina também se vê o golpe amparado pelos EUA. Aí as estratégias foram mais contidas do que em outros, mas é comprovada a ligação entre os golpistas argentinos e o governo estadunidense.
Isso foi impulsionado pela forte influência exercida por Cuba na América Latina. A idéia de comunismo e figuras marcantes como Fidel Castro e Che Guevara faziam das ideologias socialistas algo real e de grandes possibilidades de surtir efeito. Isso porque a história colonial escravocrata da região remete à exploração indígena, a exploração do trabalho negro, a dizimação de populações nativas, a desenfreada exploração dos recursos naturais e outros, que fazem do sentimento nacionalista e patriótico da população desses países, focarem a pobreza e a exploração e terem como uma ideologia a ser seguida, justamente a protagonizada pela URSS. (ARRUDA & PILETTI, 2005)
Outros países passaram por experiências similares, como o Uruguai e o Paraguai, mas não nos deteremos a estes por querer enfatizar as estratégias utilizadas com o Brasil.
No Brasil, em especial, os EUA juntamente com o governo brasileiro da época, delineiam os passos políticos de cada um de uma forma a garantir a presença do capitalismo no bojo estatal e espantar de vez o “fantasma do comunismo” do país e da região.
O começo da década de 60, a conjuntura política era a de um país com um presidente que sustentava relações diplomáticas com a URSS, não apoiava a intervenção norte-americana em Cuba e mantinha uma Política Externa Independente 3.
É relevante saber que a Política Externa Independente foi adotada porque João Goulart, presidente brasileiro à época, aspirava à projeção internacional do Brasil na época e não porque não se alinhava aos EUA. Sobre esse fato Rapoport & Laufer nos esclarece
A PEI aspirava melhorar a inserção brasileira no cenário político e econômico internacional mediante a promoção da paz mundial, a coexistência pacifica entre as superpotências e o desarmamento, assim como a defesa dos princípios de autodeterminação e não-intervenção. ( Rapoport & Laufer, p. 73, 2000)
Em suma, João Goulart não era bem visto pelos norte-americanos, tanto por sua política externa como também por suas atitudes na área interna como a nacionalização de empresas norte-americanas e seu plano de reforma de bases. Além disso, nessa época via-se multiplicar na sociedade brasileira as influências dos partidos políticos de orientação marxista.
Foi nesse contexto que a ditadura militar no Brasil se instalou a partir de um golpe de estado no ano de 1964 e perdurou durante vinte e um anos de sucessivos governos militares. Em linhas gerais, durante esse período milhares de pessoas foram atingidas em seus direitos: parlamentares tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e funcionários públicos civis e militares foram demitidos ou aposentados.
Por outro lado, o golpe militar foi saudado por importantes setores da sociedade brasileira. Grande parte do empresariado, da imprensa, dos proprietários rurais, da Igreja católica, vários governadores de estados importantes amplos setores de classe média pediram e estimularam a intervenção militar, como forma de pôr fim à ameaça de esquerdização do governo e de controlar a crise econômica e social. (FERNANDES, 1982)
De certa forma o governo norte-americano viu-se satisfeito de ver que o Brasil não seguia o mesmo caminho de Cuba e passou a dar apoio logístico aos militares. É sobre esse apoio que trataremos no próximo item.
3- A Aliança para o Progresso, o Plano Cáritas e a Operação Brother Sam: estratégias norte-americanas de “defesa” da democracia
De acordo com Bóbbio (2007, p.431) estratégia pode ser compreendida como “a técnica utilizada para alcançar um objetivo (individual ou coletivo, privado ou publico, pacífico ou bélico-militar)”. Vesentini (2005) considera que após a segunda guerra mundial o significado de estratégia se popularizou passando a significar qualquer tipo de plano, técnica ou estratagema para atingir um objetivo. Nesse sentido podemos considerar estratégia como a definição de forma ordenada e clara os meios para conseguir alguns objetivos. Tendo em vista que os objetivos dos EUA eram afastar a influência comunista da América Latina e consolidar sua presença a qualquer custo torna-se importante conhecermos algumas das estratégias norte-americanas elaboradas para esse fim.
No contexto do apoio logístico norte-americana para conter o avanço do socialismo na América Latina e introduzir a mentalidade capitalista como a melhor forma de governo no campo doméstico brasileiro, podemos considerar três importantes estratégias: o programa Aliança para o Progresso, o Plano Cáritas e a Operação Brother Sam.
O programa Aliança par o Progresso consistia, segundo especialistas, na ajuda econômica e social aos países latino-americanos que durou desde 1961 e foi sustentado até 1970, de uma forma a mostrar aos países que o governo ianque disponibilizava ajuda e tinha intenções de manter boas relações diplomáticas. Na teoria esse programa nada mais era que um esforço cooperativo para tentar fazer com que as necessidades básicas dos povos americanos fossem atendidas. Ainda mais, o nome “Aliança para o Progresso” ainda tentava passar, de uma maneira carismática e diplomática, que o governo de Kennedy estava disposto a se aliar com os países e fazer desta uma ajuda mútua para se alcançar o objetivo maior que seria o “progresso”. Mas, na verdade, se observarmos o fundo real de intencionalidade norte-americana, verificamos que o plano foi lançado em resposta à Revolução Cubana, que como já foi dito alertou o sistema de governo dos países latino-americanos ( RIBEIRO, 2005).
Nas palavras de Ribeiro:
Reconhecia-se que havia um desejo geral de mudança econômica e social nas sociedades locais, que, caso não fosse atendida, poderia aumentar o perigo da difusão do comunismo no continente, como mostrava o exemplo cubano. (p.157, 2005).
Com o decorrer da história percebemos que na verdade tanto a aliança quanto o progresso só foram verdadeiros na semântica da palavra, não revelando a mesma veracidade nos objetivos reais pretendidos. Fatos históricos mostram que a “Aliança para o Progresso” teve diversas barreiras a serem transpostas no inicio. No governo de Goulart, devido a sua posição mais nacionalista e sua política externa independente, o Congresso norte-americano ficou receoso por não saber dos reais objetivos do presidente brasileiro, assim o montante destinado ao Brasil foi de pouca expressão. Para ilustrar essa desconfiança de Kennedy com os problemas brasileiros, foram implementadas no Brasil duas “bases de apoio” do governo norte-americano para o programa, que foram as sedes da United States Agency for Internacional Development (USAID), uma no Rio e a outra no Recife. Essa instituição tinha o intuito de ser o elo entre os investimentos externos e o governo brasileiro. Porem vê-se ai também uma estratégia de inserção dos ideais americanos, pois a USAID pretendia apoiar os governos que se opunham à aproximação com Goulart e financiá-los, querendo dessa forma que governos mais alinhados ao capitalismo ascendessem ao poder (RIBEIRO, 2005).
Assim sendo, com o golpe de 64 e a ascensão ao poder de Castelo Branco, primeiro presidente militar, a história tomou um rumo diferente. Castelo era visivelmente pró-americano e promoveu um realinhamento da política externa brasileira, e isso deixou os norte-americanos eufóricos, que fazia com que o fluxo de investimentos no país fosse muito maior e chegassem a passam a ordem dos 600 bilhões de dólares. O período compreendido entre 1964 e 1967 foi o que teve maior afluxo desses investimentos. Porém com a ascensão de Costa e Silva, presidente seguinte, e alguns acontecimentos políticos internos brasileiros, a liderança de Nixon, presidente norte-americano após Johnson, passou a analisar o programa como uma ajuda não coerente com a época e deixou com que a política minguasse até desaparecer completamente em 1970. (RIBEIRO, 2005)
Vê-se que a Aliança para o Progresso, portanto, foi uma tentativa que teve seus momentos de dinamismo e sua importância material. Na realidade a Aliança foi uma maneira que os EUA desenvolveram para engajar os latino-americanos e criarem um vinculo de dependência destes com seu governo. Posição essa reforçada por Ribeiro quando diz que:
A Aliança seria o mais sofisticado instrumento construído pelo imperialismo para a região e sua retórica e mesmo seu reformismo, apenas escondiam os objetivos básicos de expansão do capital e do avanço da dominação imperialista. (Ribeiro p.160, 2005).
Outra estratégia desenvolvida pela Casa Branca foi o lançamento do Plano Caritas, em 1961. Financiado pelos católicos de países como os EUA, o Plano Caritas buscava atenuar os efeitos da crise social que atingia quase todos os países da America Latina, distribuindo alimentos, medicamentos e esmolas. No entanto, o objetivo real do plano - camuflado nas desculpas sociais - era a doutrinação da camada popular contra idéias revolucionárias. Assim, o exemplo mais berrante da dedicação dos EUA na campanha anticomunista com o uso da religião, se deu em 1963, com a vinda ao Brasil de Patrick Peyton, um padre estadunidense preparado pela CIA a serviço do governo. Nas pregações de Peyton, ele manifestava aversão a toda forma de governo diferente da dos EUA; o que mostra a influencia de Washington na formulação ideológica da população com o objetivo de barrar revolucionários que pregavam o ateísmo e idéias comunistas no país.( CAROS AMIGOS, 2007,p.82)
É comprovada a participação de instituições internacionais, como a CIA, por exemplo, no financiamento econômico com a mobilização. Vê-se ai, portanto, uma evidente vitória dos EUA ao que concerne na guerra ideológica. Ainda no governo Kennedy, este, logo após sua eleição, elege um novo embaixador para o Brasil, Lincoln Gordon, um professor de Harvard que ajudou na elaboração da Aliança para o Progresso. Personagem esse que foi de vital importância para a projeção e instalação dos ideais americanos em território brasileiro. O novo embaixador fez as devidas pressões no Palácio do Planalto contra a política externa independente, além de ir contra a presença de elementos de esquerda nos altos escalões do governo brasileiro. Outra figura norte-americana importante que se incorporou a embaixada foi Vernon Walters. Militar de carreira, foi intérprete do comando norte-americano junto aos oficiais brasileiros na Segunda Guerra Mundial, o que já demonstra certa intimidade deste com os militares brasileiros. Walters foi também quem estimulou a hipótese de ingerência direta de Washington no golpe contra Goulart. Então, as relações dentro do próprio território brasileiro se davam basicamente da seguinte maneira: enquanto Walters contatava diretamente os militares envolvidos na conspiração contra Goulart, Gordon desenvolvia uma estratégia paralela, fazendo diplomacia com governos estaduais da oposição de Jango. Resultado dessas relações internas foi a revalidação do Acordo Militar Bilateral de 1952, que se deu entre Castelo Branco – Comandante em Chefe das Forças Armadas no período – e a embaixada dos EUA. O pacto atribuía ao exército norte-americano direitos exclusivos para colaborar na organização e operação da Escola Superior de Guerra (ESG) – centro de formação de militares no Brasil. (CAROS AMIGOS,2007, p. 86)
De acordo com a reportagem da citada revista, com a morte de Kennedy e a ascensão de seu vice Lyndon Johnson, a diplomacia de Washington se torna um pouco mais radical. Dessa forma a política traçada por seu Sub-Secretário de Estado, Thomas Mann – um conhecido conservador -, dá origem ao que foi chamado de “Doutrina Mann”, a qual mostrava claramente que a Casa Branca não se importava mais se militares tomassem o poder - desde que fosse uma ponte entre o novo regime e o governo norte-americano.
A Operação Brother Sam, encabeçada na forma concreta e incisiva de apoio logístico-militar aos opositores do governo de Goulart. A operação, batizada com um nome um tanto quanto peculiar, trazia consigo, em 31 de março de 1964, a mobilização de1 navio de transporte de helicópteros, 6 destróieres, 4 petroleiros, 20 aviões, isso tudo capitaneado pelo porta-aviões Forrestal, além de toneladas de munições e armas leves. O próprio embaixador Gordon reconheceu, anos mais tarde, a paternidade da idéia da operação, demonstrando sua influência nas relações EUA – Brasil, e foi além ao propor uma segunda fase de ação, que seria uma intervenção aberta para afastar a possibilidade de uma ajuda soviética. (CAROS AMIGOS, 2007). Esse fato, paralelamente atrelado à Operação Popeye 4 representou o medo dos norte-americanos da militância pró-Goulart que poderiam oferecer resistência bem como demonstrou que tanto os militares engajados na tomada do poder quanto os EUA, estavam prontos e decididos a levar à frente a consolidação do governo militar e sua conseqüente aliança ao capitalismo norte-americano
O pronunciamento oficial da Casa Branca para tal levante foi a de que a operação foi acionada para resgatar civis norte-americanos. Mas o que se viu foi a mais clara demonstração da participação americana no golpe. Nas palavras Moraes (2006, p.03)
(...) embora a intervenção militar direta do governo estadunidense não tenha chegado a se concretizar, a certeza de poderem contar com o ‘colosso do Norte’ (para retomar fórmula corrente entre a direita pró-imperialista) trouxe grande encorajamento aos conspiradores, além claro, de confirmar o sistemático desrespeito do Império do dólar à soberania dos povos cujos governos o incomodam.
Está mais do que claro que os militares que conspiraram contra Goulart em 1964 estavam diretamente amparados pelo governo norte-americano, demonstrando o caráter imperialista do governo do Norte e sua paranóica disposição em fazer valer seus ideais. Assim, seguindo-se no processo, no mesmo dia em que a logística americana chega às costas brasileiras, o golpe foi dado e a ajuda militar não foi precisa, apenas estava lá e representou força, demonstrando apoio e satisfação.
Como já foi explicitada toda a conjuntura de estratégias “pré-golpe” militar desencadeada pela militância brasileira e pelo governo norte-americano, é necessário também colocarmos em pauta uma outra análise que tange às estratégias utilizadas para garantir a permanência do governo militar no país – ou seja, uma estratégia “pós-golpe” militar. Uma vez instaurado no governo, o regime militar brasileiro garantiu para si o monopólio das informações - com a criação do Serviço Nacional de Informações -, dos veículos de comunicação, a repressão armada e deu plena liberdade à polícia e ao exército para garantir a “ordem” no meio social. Esses poderes chegaram ao limite no governo Médici, que utilizou o AI-5 – Ato Institucional número 5- como a maior máquina de repressão aos movimentos anti-governo.
Não entrando em detalhes sobre a ditadura em si, precisamos verificar, portanto, a principal estratégia feita com a parceria Tio Sam - Jeca Tatu para garantir a permanência do governo. Esta foi batizada de Operação Condor. A operação Condor que consistiu, basicamente, numa aliança político-militar entre os vários regimes militares da América do Sul – Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Bolívia e Uruguai. O intuito era fazer com que os oponentes das ditaduras vigentes que estavam exilados no exterior fossem perseguidos e calados. Assim, em 25 de Novembro de 1975, no Chile, ocorreu uma reunião entre os 6 líderes das inteligências militares do Cone Sul. A Operação tinha como objetivo coordenar, de uma forma aos países interagirem entre si, a repressão das oposições de governos militares. (CAROS AMIGOS 2007)
Com uma cadeia de alianças entre os governos do Cone Sul, foi possível montar planos de defesa interna e até de criar uma teia de informações com as quais era possível saber o que ocorria no país vizinho e até de um país pedir ajuda a outro se fosse necessário. Sempre encabeçado pelo governo norte-americano, que criou agências no norte do Panamá para realizar encontros anuais entre os dirigentes dos países ditatoriais para esclarecerem a situação de seus países. Uma contribuição clara da ajuda norte-americana para a Operação foi a criação de um centro de comunicações na Zona do Canal do Panamá, através da qual as inteligências sul-americanas mantinham contato.
A Operação Condor viu, na disposição dos governos militares em cooperar entre si para abafar eventuais revoluções e golpes de Estado, a oportunidade real de prevalecer o interesse americano na continuação do governo e de seu modo dependente do capital norte-americano. O nome “Condor”, assim como “Brother Sam”, tem seu sentido embutido. A ave andina Condor é especialista na caça à suas presas e é símbolo de astúcia e perseverança; o que acaba por subentender que a força dos governos militares e de suas reais pretensões de manterem a ordem e o atrelamento ao governo dos EUA era espelhado na figura do animal. Os encontros entre os líderes surtiram efeito no começo da operação, demonstrando, no entanto, fraqueza e indisposição com o seguimento do processo.
4-Considerações Finais
Assim, concluindo de uma forma a elaborar uma teia de análises, temos a real participação norte-americana na instalação de governos ditatoriais no Cone Sul – o que inclui o Brasil e nossa pesquisa - fazendo dos regimes sulistas um “quintal” capitalista, muitas vezes forçados a serem, dos EUA. Com um contexto de plena Guerra Fria, a disputa ideológica exigia dos demais Estados um alinhamento a um dos dois lados para que fosse inserido no sistema internacional de maneira efetiva. Foi assim que se sucedeu o governo militar brasileiro, trazendo consigo vinte e um anos de regimes ditatoriais no país e que nos levou a refletir – não só nós, mas como pesquisadores de todas as áreas- quais foram as intenções brasileiras e americanas na instauração do regime e também qual foi o pano de fundo necessário e utilizado para tal objetivo. A gama de informação e nossa busca por respostas nos levou a este trabalho, dedicado à fins acadêmicos e, muito mais, à fins culturais da nossa própria sociedade como uma forma a entendê-la melhor.
Referências Bibliográficas
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BOBBIO Norberto, MATTEUCI Nilcola & PASQUINO Gianfranco. Dicionário de Política.Brasília: Unb, 2007
CAROS AMIGOS. A ditadura militar no Brasil; a história em cima dos fatos. Editora Casa Amarela: Sumaré. Edição Especial, 2007, p.p 68-86: fascículo III; p.p 304-305: fascículo X.
FERNANDES, Florestan. A ditadura em questão. São Paulo: T. A. Queiroz, 1982.
HAESBAERT, Rogério & GONÇALVES, Carlos Walter. A nova des-ordem mundial São Paulo: Editora da Unesp, 2006.
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RAPOPORT, Mario & LAUFER., Rubén. Os Estados Unidos diante do Brasil e da Argentina: Os golpes Militares da década de 1960. In: Revista Brasileira de Política Internacional. Brasilia: Ed: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais; Número: 001, ano: 2000 p.p 69-98.
RIBEIRO, Ricardo Alaggio. A teoria da Modernização, a Aliança para o Progresso e as relações Brasil – Estados Unidos. Perspectivas – Revista de Ciências Sociais. São Paulo: Universidade Estadual Paulista/UNESP, Vol. 30: p.p.151-175, jul-dez/ 2006
VESENTINI, José Willian. Novas Geopolíticas. São Paulo: Contexto, 2005
NOTAS:
1 Trabalho realizado sob a orientação da Profª Drª Noemia Ramos Vieira, docente responsável pela disciplina Geopolítica da América Latina
2 Alunos graduandos do curso de Relações Internacionais
3 Também conhecida por PEI
4 Foi o movimento das tropas de Minas Gerais comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho em direção ao Rio de Janeiro que teve apoio direto dos EUA.